26 março, 2007

Ibrahim Ferrer, Kékélé e Africando - Entre África e Cuba



A música cubana tem raízes em África. Mas os africanos também sabem, desde há muitas décadas, ir buscar a sua inspiração à música cubana, muitas vezes adaptando-a, naturalmente, à sua própria música (como na rumba congolesa, por exemplo). Aqui fala-se de três álbuns recentes em que a salsa, a rumba, os boleros, a guajira andam de mão em mão entre África e Cuba, com o grande Ibrahim Ferrer (na foto) à cabeça e com os congoleses Kékélé e os «transatlânticos» Africando como acólitos perfeitos.


IBRAHIM FERRER
«MI SUEÑO»
World Circuit Records/Megamúsica

Há um arrepio enorme que nos desce pela espinha quando ouvimos este novo álbum do cantor Ibrahim Ferrer, de tão bonito que ele é. De tão novo e ao mesmo tempo tão antigo, de tão puro e ao mesmo tempo tão sofisticado, de tão bem cantado e tocado e ao mesmo tempo tão sentido. Neste álbum póstumo de Ibrahim Ferrer (falecido em Agosto de 2005), dedicado a um género que era da sua especial predilecção, o bolero, a velha glória da música cubana dada a conhecer pelo projecto Buena Vista Social Club conta com a presença de um maravilhoso pianista, Roberto Fonseca, e de dois músicos do «colectivo» Buena Vista - Orlando «Cachaíto» López (baixo), Manuel Galbán (guitarra) - na sua banda acompanhante e ainda de outros convidados de luxo: os também BVSC Rubén González (piano em «Melodía del Río»), entretanto também já falecido, a cantora Omara Portuondo (no delicioso dueto de «Quizás, Quizás») e Amadito Valdés (timbales em «Alma Libre»). A voz de Ibrahim - e apesar de muitas destas gravações da sua voz serem maquetas e o álbum estar longe de ficar terminado quando ele morreu - está como peixe na água nestas canções de amores e desamores, de traições e fidelidades loucas, quase fados mergulhados em água a ferver e servidos disfarçados de rum borbulhante e muito, muito alcoólico. (9/10)


KÉKÉLÉ
«KINAWANA»
Sterns Music/Megamúsica

Há uma rumba congolesa? Há, tal como os Kékélé explicaram bem no seu álbum de estreia, «Rumba Congo». Tal como há blues na zona mandinga de África, merengue angolano, hip-hop em todo o continente... E a razão já é sabida: essas formas musicais norte ou latino-americanas tiveram a sua origem em várias zonas de África e, muitas vezes, a ela voltaram como eco de um eco anterior. E é isso também que faz a riqueza de muita música híbrida africana, como no caso dos Kékélé, que vão à rumba latino-americana e dela se apropriam para a enfeitar, sempre bem, com harmonias que só podiam nascer em África. E com uma explicação histórica para a re-apropriação: segundo os Kékélé, a rumba teve a sua origem no ritmo congolês nkumba, levado pelos escravos para Cuba há centenas de anos e até mais recentemente (no séx.XIX ainda havia tráfico de escravos entre a África Central e Cuba). Em «Kinawana», o seu terceiro álbum, o quinteto - ao qual está de volta Papa Noel - adapta canções cubanas conhecidas (todas elas compostas ou gravadas pelo lendário compositor e cantor cubano Guillermo Portabales), dá-lhes outros nomes porque cantadas em lingala e serve uma festa interminável de guajiras, rumbas e outros ritmos latino-americanos, que também metem ao barulho Manu Dibango (que toca saxofone em cinco temas) e a cantora Mbilia Bel. (8/10)


AFRICANDO
«KETUKUBA»
Sterns Music/Megamúsica

E agora, uma frase feita: o melhor dos dois mundos costuma encontrar-se nas gravações dos Africando e «Ketukuba», o novo álbum deste super-grupo, não foge à regra (outra frase feita). Os Africando são um projecto afro-cubano que reúne cantores de várias nacionalidades africanas (e um porto-rqieunho) com músicos na sua maioria cubanos, sob a direcção visionária de Ibrahima Sylla (o homem por trás da Syllart). E o que se pode ouvir em «Ketukuba» são salsas - mesmo que num dos casos, «Viens Danser Sur Le son Africando», seja chamada salsa-mandinga, o que se percebe bem quando se ouve a canção -, rumbas, guaguancos e guajiras cantadas em wolof, mandinga, lingala, por vezes francês e espanhol, que apelam a um baile global, transcontinental, total. Sem o cantor Gnonnas Pedro (a quem é dedicado o álbum), entretanto falecido, e com três temas arranjados pelo pianista cubano Alfredo Rodriguez (que morreu durante as gravações do álbum), as vozes dos Africando são agora Sékouba Bambino, Amadou Balake, Medoune Diallo e os novos recrutas Basse Sour, Pascal Dieng (ambos do Senegal) e o porto-riquenho Joe King, tendo como convidados o congolês Madilou System e Lodia Mansour, filho de Medoune Diallo. E os novos não ficam a dever nada aos mais velhos, ficando assim assegurada uma continuidade brilhante a este grupo que já vai no seu sétimo álbum. (8/10)

1 comentário:

Anónimo disse...

Mucho mas encanto!!! Africa es Cuba y Cuba es Africa! Mi casa = tu casa!!! Visita por favor: http://lynwilliams.multiply.com/tag/podcast